Comédia Stand Up é improviso?

Comédia Stand Up é improviso?
11 maio 2018

Essa é uma dúvida recorrente do público: a comédia stand up tem roteiro ou é tudo feito no improviso? O comediante sobe ao palco já sabendo o que vai falar, ou fala aleatoriamente o que vem à cabeça?

Por que a dúvida?

Um dos aspectos que podem levantar essa dúvida é o fato de o comediante stand up falar com muita naturalidade, como se fosse um colega de trabalho narrando um fato engraçado para outro. Essa naturalidade pode levar a plateia a pensar que o humorista não planejou, e está falando o que acabou de pensar.

Outro ponto que favorece a dúvida é fato de existir um gênero de comédia pautado pelo improviso. Nos espetáculos de improviso, geralmente feitos por mais de um ator, o mais comum são os atores utilizarem temas dados pela plateia em cenas de improviso cujo formato é pré-estabelecido. O desafio dos atores é improvisar trazendo temas difíceis para o formato da cena. Nesse caso, de fato, os atores estão criando as cenas todas na hora, como acontece no famoso show “Improvável” da Cia de Humor “Os Barbixas” e no extinto programa “Quinta Categoria” da MTV.

Como acontece na comédia stand up?

A comédia stand up é roteirizada, e o roteiro demanda muito tempo, estudo e testes para chegar ao formato ideal. Os comediantes possuem técnicas para transformar assuntos diversos em narrativas engraçadas, e, como todo estilo de humor, a graça está na reversão de expectativa: o humorista faz a plateia acreditar que vai falar X, e de surpresa fala Y. A quebra da expectativa gera o riso, como no exemplo da piada abaixo, de Paulo Araujo:

“Fico feliz que em meio a toda essa crise, estou devendo apenas duas pessoas: Deus e o Mundo”

Nessa piada Paulo (foto) leva a plateia a pensar que ele não está endividado, e que mesmo com a crise deve apenas a dois credores. Quando vai citar os credores ocorre a reversão de expectativa e Paulo cita “Deus e o Mundo”, ou seja, rapidamente deixa claro que, ao invés de dever pouco, está devendo muito. Essa piada só é possível devido ao fato de “Deus e o Mundo” ser uma expressão já bastante conhecida que quer dizer “todo mundo”.

“Standup é totalmente roteirizado e eu não vejo obrigação de o comediante saber improvisar, mas a habilidade de improvisar é sempre bem vinda, e geralmente quando o improviso funciona, o comediante acaba transformando aquele momento em parte fixa do roteiro, voltando para a máxima de que sim, o standup é 100% roteirizado”. comenta Paulo Araujo.

Embora seja um comediante com grande capacidade de escrita, Paulo conta que chega a trabalhar por vários dias em um roteiro de apenas 5 minutos, em um processo que consiste em destrinchar um assunto, criar piadas sobre ele, e depois eliminar piadas do texto para que fiquem apenas as que de fato devem funcionar bem. Ainda assim, o texto novo é uma aposta, o comediante pode se surpreender ao testar diante do público e perceber que aquela piada que parecia fraca foi a que mais divertiu o espectador.

O improviso também acontece

É claro que em vários momentos o improviso se faz presente na comédia stand up, seja em um momento de interação com a plateia, seja quando o comediante pensa em algo novo bem no meio do show. Em nosso elenco, um dos humoristas com maior capacidade de improvisação é Edgar Quintanilha. Edgar é capaz de conduzir o show por vários minutos apenas conversando com a plateia, e garante que o improviso acontece de forma genuína:

“Não tenho nenhuma técnica. O que procuro fazer é não me censurar nos momentos de interação com o público. O que vier na minha cabeça, eu falo! Isso, por sinal, já me causou alguns problemas. Hoje, depois de quase 10 anos fazendo, consigo deduzir, antes de falar, se o que pensei foi “pesado” demais. Mas é um processo fluido. Não penso muito enquanto estou fazendo”.

Partindo da máxima de que o humor consiste em surpreender a plateia, o improviso se torna um momento divertidíssimo, pois o fato de ninguém saber o que pode acontecer – nem mesmo o artista – deixa a surpresa maior. Edgar ressalta que a interação com a plateia não pode deixar o espectador desconfortável:

“A única coisa que me atento mesmo é se a pessoa está disponível ou não. Nos primeiros momentos já fica claro se o espectador ficou desconfortável com a interação, ou simplesmente com o fato de entrar no foco do espetáculo. Quando isso acontece, não rendo com aquela pessoa. Parto pra outra”.

Para o improviso funcionar, Edgar entende que o foco precisa estar na resposta da plateia:

“A escuta tem que estar aberta. Jogo com o que recebo. Se pergunto algo e a resposta é interessante, é com isso que vou jogar. Se não é interessante, é com isso que vou tentar jogar. Se não der certo, parto pra outra.

Certa vez me falaram que esse tipo de estilo tem até nome: crowd-work, que em português seria algo como trabalhar com a multidão. Eu sei lá, só sei que faço porque me divirto. Mas quando não estou num dia bom, eu nem começo”.

Edgar Quintanilha durante show em Belo Horizonte


Girafa Olegária
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